Rede de cidades

Falemos de cidades, nesses dias em que estamos todos ligados numa delas, que trocou o nome de Pequim para Beijing por sugestão de seu numerólogo preferido. Mas não falemos de Olimpíadas, cujo ponto alto até o momento foi o pódio, cheio de sorrisos, que pôs lado a lado uma russa (ouro) e uma georgiana (bronze). A Rússia ganhou a tiros de carabina.


Rússia e Geórgia: espírito olímpico se restringe a Pequim

Falemos de cidades, esses aglomerados de gente cada vez maiores e mais bagunçados, principalmente nos países que ainda estarão se desenvolvendo (desculpem-me, vício de um ex-operador de telemarketing…). Enquanto a economia de Brasil, China, Índia, México e outros países da terceira divisão mundial cresceu muito nos últimos anos e segura a onda da crise nos EUA, a vida em seus centros urbanos está cada vez mais difícil.

Mas como, pelo amor de Deus, Shiva, Buda e Alá, é possível pôr ordem nesse formigueiro? Como dar oportunidades a todos que chegam à metrópole em busca de trabalho? Como assegurar que quem já tem emprego consiga chegar ao escritório em tempo e condições razoáveis? Como garantir comida, diversão e arte aos milhões de paulistanos, cariocas, portenhos e mumbaínos (moradores da antiga Bombaim, que também mudou de nome por motivos já conhecidos)?

A receita não está em nenhum dos livros sagrados, mas é simples: vamos exigir o boletim de notas da cidade em que moramos. Eu cresci com esses valores. Se não levasse para casa notas boas ao fim de cada bimestre, minha mãe me obrigava a refletir sobre meu fracasso, sentado em um banquinho, virado para a parede. Tive uma infância solitária.

Brincadeiras à parte, essa é a proposta da Rede de Cidades, que une Ilha Bela, Rio de Janeiro, São Paulo e Teresópolis às colombianas Cali, Cartagena, Medelin e Bogotá, que iniciou o movimento há dez anos. Em 1998, a capital do país de García Máquez juntou representantes de diferentes setores da sociedade civil para uma missão: criar um conjunto de 120 indicadores econômicos, sociais e ambientais da cidade. A partir de então, o movimento Bogotá Cómo Vámos acompanha os avanços e os insucessos, divulgando-os amplamente. Isto é, todas as mães da cidade sabem do desempenho dos governantes. O cerco fechou.


Jovens do Conselho da Juventude
de Bogotá em reunião sobre a cidade

Esse envolvimento da população nos rumos da cidade, participando das soluções, acompanhando a execução delas e cobrando resultados, ajudou a transformar Bogotá, em apenas uma década. A taxa de homicídios caiu 80% e a arrecadação municipal triplicou. Nos últimos anos, centenas de milhares de bogotanos pagaram 10% a mais de impostos, voluntariamente, para colaborar com um programa de investimentos urbanos governamental.

Outras cidades copiaram esse modelo de gestão compartilhada. Uma das iniciativas mais atuantes é o Movimento Nossa São Paulo, fundado em 2007. A maior cidade do Brasil já tem seu próprio boletim de notas, composto por 130 indicadores, alguns gerais do município, outros divididos por subprefeitura. Pelo que se pode ver, as notas por enquanto são quase todas vermelhas. Mas disso já desconfiávamos.

O que importa, agora, é que temos um acerto de contas estabelecido, com parâmetros objetivos. E que sabemos, tanto as mães como os filhos, que o banquinho está sempre ali, no cantinho da sala.

Outras integrantes da Rede de Cidades

Rio de Janeiro

Teresópolis

Ilhabela

Cali

Cartagena

Medellín

Anúncios
Esse post foi publicado em Ecocultura e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s