Verde não é transparente

“Se ele é capaz de tudo atravessar, é portador tanto de morte quanto de vida. Pois, e é aqui que a valorização do símbolo se inverte, ao verde dos brotos primaveris opõe-se o verde do mofo, da putrefação — existe um verde de morte, assim como um de vida” (Jean Chevalier e Alain Cheerbrant, Dicionário de Símbolos)

Abundante na natureza, a cor verde é referência imediata ao meio ambiente. Por extensão, passou a simbolizar o conceito de sustentabilidade. Logo conquistou o mercado de comunicação, colorindo peças publicitárias e adjetivando campanhas com temas ecológicos – exceto quando antecedido do substantivo “mancha”.

Recentemente, porém, as formas apelativas com que algumas empresas vêm relatando suas ações em sustentabilidade têm atribuído uma nova conotação ao verde. É o que acontece no termo greenwash, cunhado na Europa para ironizar tais práticas. A tradução literal é “banho verde”, mas, em português, o sentido mais próximo é de “maquiagem verde”, algo usado para mascarar uma realidade pouco ou nada sustentável. A expressão foi adaptada de whitewash, nome dado a um tipo barato de tinta branca usado nas fachadas de construções.
O tema greenwash foi tratado no último grupo de estudos promovido pela Report Comunicação, com o tema “Como incluir temas críticos no relatório – A abordagem com transparência de fatos negativos”. De acordo com a Global Reporting Initiative (GRI), os princípios que determinam a qualidade de um relatório são equilíbrio, comparabilidade, exatidão, periodicidade, clareza e verificabilidade. A transparência deve ser uma constante. Por isso, é essencial que a empresa relate também situações desfavoráveis e assuntos polêmicos.
Foi assim que a Alcoa garantiu a credibilidade de seu Relatório de Sustentabilidade 2005. Naquele ano, estava em fase final o projeto da Usina de Barra Grande, que inundaria 2.000 hectares de uma floresta de araucárias na fronteira entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. As empresas beneficiadas seriam Alcoa, Votorantim, CPFL, Bradesco e Camargo Correa (consórcio Baesa), que, para conseguirem a autorização do Ibama, basearam-se em um inventário feito pela Engevix Engenharia em 1997. Contudo, o estudo apresentava erros e omissões e, às vésperas da inundação, biólogos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) identificaram uma espécie rara de bromélias na região. O projeto acabou sendo interrompido, a usina teve de ser transferida, e a Baesa assumiu o compromisso de manter o material genético da vegetação a ser desmatada. Das cinco empresas envolvidas, somente a Alcoa relatou o caso.
A transparência também foi o caminho escolhido pela Aracruz Celulose ao incluir, no relatório de 2007, os índices de avaliação de sua imagem. A companhia viveu conflitos de terras com índios, no Espírito Santo, e com comunidade quilombolas, na Bahia. Publicou, inclusive, uma carta da presidente da Associação Quilombola de Helvécia, Maria Aparecida dos Santos, cobrando o desenvolvimento na região prometido pela Aracruz há 20 anos.
Mesmo que não haja um episódio fatídico a se mencionar, toda empresa tem pontos negativos que devem ser tratados abertamente. A Bunge, por exemplo, aborda, a cada relatório, os impactos que suas plantações geram na Amazônia, no Cerrado e na Mata Atlântica e as respectivas ações para mitigá-los. A iniciativa contribui não somente para a credibilidade de todo o relato, mas também funciona como estratégia para expor sua versão dos fatos – de forma clara, sem greenwash.
Fisicamente falando, ainda que permita a visualização do objeto, a cor verde compromete a definição dos traços e identificação das cores originais. Semanticamente falando, verde de forma alguma é transparente.

Dica: Para explicar o movimento greenwash e sugerir possíveis soluções, a agência inglesa Futerra Sustainability Communications lançou o The Greenwash Guide, que deve ser editado no Brasil pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS). Quem quiser conhecer a versão original pode fazer o download no endereço http://www.futerra.co.uk/services/greenwash-guide.

(Silvia Wargaftig)

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2 respostas para Verde não é transparente

  1. Alessandra disse:

    Muito bom!

  2. Anonymous disse:

    Olha, que eu saiba o projeto da Usina da Barra Grande da Alcoa e outros sócios não foi interrompido, gerando um dos maiores crimes ambientais brasileiros.
    Muitas notícias podem ser encontradas no google, como essa: http://www.riosvivos.org.br/canal.php?canal=16&mat_id=7153

    Abs

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