Entropia militante

O último leilão de energia do Ministério de Minas e Energia, em outubro, consagrou a entropia ambiental no Brasil. Pela sétima vez consecutiva desde 2005, dezenas de usinas termelétricas e apenas uma usina hidrelétrica conseguiram licença ambiental prévia para implantação. As dificuldades no licenciamento de hidrelétricas, que implicam em tramitação de recursos judiciais cada vez mais freqüentes, estão induzindo a uma mudança estrutural da matriz elétrica: a participação das usinas térmicas a gás e a óleo – que emitem carbono na atmosfera – já passou para 11,2% e 4,6% do total, respectivamente.

Isso significa que, no momento em que cresce a preocupação global com as mudanças climáticas, e que o Brasil se esforça em convencer parceiros mundiais a apoiarem políticas de “desmatamento evitado” para controlar as emissões de carbono das queimadas na Região Norte, o país aumenta as emissões de carbono na Região Sul. Cinqüenta termelétricas, com 12.800 megawatts de capacidade total, sendo 35% usinas a óleo ultra poluidoras, foram contratadas no leilão de outubro. Com a oferta de gás natural em crise, devido às incertezas no fornecimento de gás boliviano, a expansão das usinas a óleo está “sujando” a outrora “limpa” matriz elétrica brasileira.

Um dia antes das bolsas de valores despencarem no mundo todo, o leilão de outubro contratou o investimento de R$ 11 bilhões em energia futura, sinal de que os negócios com energia resistem à recessão. Isso porque está claro que o futuro será eletrointensivo. Viveremos cada vez mais plugados e conectados, dependentes da eletrônica. Nossa conta de energia só vai subir.

As hidrelétricas geram notórios impactos socioambientais, como alagamentos e remoção de populações, que embora possam ser indenizados e compensados, são politicamente voláteis, posto que intangíveis e simbólicos. A militância contra as hidrelétricas exprime demandas legítimas de grupos sociais afetados pelos impactos, geralmente pouco articulados, como índios e camponeses, mas abstém-se das conseqüências e dos custos para a sociedade inteira. As ongs trabalham para seus públicos de interesse, delegando a questão nacional a outros. Ponderações complexas não são confortáveis para ninguém.

No passado, o viés “barrageiro” dos governos militares espalhou barragens e construiu hidrelétricas desastrosas no país, como Sobradinho, Tucuruí, Balbina e Samuel. Trinta anos depois, recorrer à crítica ambiental para gerar entropia socioambiental e suicídio econômico, além de calamitoso é desanimador. A guerra contra as hidrelétricas finge ignorar que os projetos de engenharia modernos incorporaram críticas, e que hoje, por exemplo, já existem turbinas a fio d’água, que eliminam o modelo de alagamento do passado, como nos projetos recentes de Jirau e Santo Antonio, no Rio Madeira.

É perturbador que, em nome da preservação ambiental, se promova um retrocesso na matriz elétrica do país – 46% proveniente de energia renovável –, uma das mais limpas do mundo, graças à qual o Brasil cumpriu um papel de vanguarda nas negociações do Protocolo de Kyoto. Além não conseguir diminuir o desmatamento, fonte de 75% das suas emissões de carbono, o país está produzindo um aumento desnecessário das emissões de gases de efeito estufa, cujos efeitos irreversíveis no clima, só serão agravados. Em vez de evoluir para um patamar de desenvolvimento de baixa emissão de carbono, estamos involuindo.

O Brasil detém 12% da água de superfície do planeta, domina a engenharia hidráulica, a energia hidrelétrica custa barato (R$105 por MWh contra R$382 por MWH de usinas a óleo) e suas emissões de carbono são desprezíveis. Mais limpo do que água passando numa turbina só a energia do vento e a do sol. Essas, entretanto, custam mais caro, exigem pagamento de royalties ao exterior e, sobretudo, são intermitentes, não podendo ser armazenadas. Para um país abençoado com muitos rios, uma moratória da hidroeletricidade raia o surrealismo. Em tempos de aquecimento global, a energia hidráulica é uma dádiva.

Graças a seus recursos ambientais, o Brasil pode ser uma usina mundial de energia renovável, aproveitando a biomassa, a hidroeletricidade, a energia eólica e a solar. Para tanto, precisa controlar seu enorme desperdício de energia (reverso da abundância) e implantar políticas de conservação, de eficiência energética e de repontencialização de usinas, cujos custos seriam mais baixos do que novos empreendimentos e gerariam mais benefícios. Mas até nisso, no ciclo de vida, as hidrelétricas levam vantagem: troca-se uma turbina de 50 anos por uma nova, aumenta-se a geração de energia e os rios continuam a movê-las por décadas.

O Brasil também dispõe de 350 usinas de açúcar e álcool em operação, das quais apenas 40 geram energia elétrica, desperdiçando-se todo o valor bioenergético do bagaço da cana. Além disso, só em Minas Gerais, há 170 usinas siderúrgicas operando 300 fornos capazes de gerar 6.000 megawatts de eletricidade, tudo também cotidianamente desperdiçado. Muitas siderúrgicas mineiras queimam carvão vegetal de florestas nativas, promovendo desmatamento, ou consomem carvão mineral e coque importado da China, baratinho e ultrapoluidor. Induzir as empresas à migração para o carvão vegetal gerado por florestas plantadas sustentáveis, que absorvem carbono da atmosfera, deveria ser uma política pública.

Com tantas alternativas de eficiência disponíveis, porque, então, o governo e o Ministério de Minas e Energia insistem nas hidrelétricas? Por falta de ousadia, primeiro. Há um vasto campo para as políticas de desenvolvimento sustentável no país. Os investimentos em eficiência energética – que exigem do setor energético planejar “fora da caixa” – podem turbinar o desenvolvimento e a conservação. Outra razão importante, que não deve ser criminalizada, é que grandes hidrelétricas movimentam cadeias industriais, financeiras, tecnológicas e de serviços, turbinando vários setores da economia, gerando renda, negócios, empregos e impostos. O desenvolvimento econômico é crucial para um país que passou décadas sem crescer, acumulando estagnação e decadência. Ambientalistas que desprezam o desenvolvimento só replicam economistas que desprezam a preservação.

Todos perdem com a entropia ambiental. Mas os ambientalistas globalizados que promovem um ambientalismo de sucursal, com agendas definidas fora do país, desfocadas na realidade brasileira, perdem menos, é claro. Já nós, brasileiros, em vez de pensar globalmente e agir localmente, estamos pensando localmente e agindo globalmente mal.

(Ricardo Arnt)

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2 respostas para Entropia militante

  1. Anonymous disse:

    Excelente análise, Ricardo! Mais uma incoerência dos nossos “estadistas”…
    LG

  2. Anonymous disse:

    Prezado Ricardo,

    Vc cita na sua matéria: “O Brasil também dispõe de 350 usinas de açúcar e álcool em operação, das quais apenas 40 geram energia elétrica”.
    Qual a fonte da sua pesquisa sobre as 40 usinas que geram eletricidade? Pode me passar, pois essa informação é muito útil para mim.

    Grato,

    Francisco
    francisco.santo@bol.com.br

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