Poesia nascida do fogo

Ano novo, tempo de jogar fora a papelada velha.

Aí, a gente encontra cada coisa…

Achei um Jornal da CSN de outubro de 2000 onde li uma poesia minha do tempo em que era analista de comunicação naquela siderúrgica. A poesia foi resultado de uma visita noturna à usina para uma reportagem sobre a manutenção preventiva no Alto-Forno 3.

Compartilho, para vocês sentirem o clima – sempre atual, pois as operações continuam muito parecidas e as pessoas podem mudar, mas o empenho de algumas equipes sempre faz uma enorme diferença:

Já passa da meia-noite.
Chove torrencialmente.
É madrugada.
Enquanto a cidade inteira dorme, centenas de almas trabalham.
Surgem caminhando, de bicicleta ou pulam do ônibus.
Uniformes, marmitas, pensamentos diversos.
Aqui estão.

Entram na usina.
Laminação, coqueria, sinterização, alto-forno.
Mais uma noite.
A peãozada tem cara, coração.
Raça. Cansaço. Força. Sorriso.
Dezenas de operários circulam entre pesadas peças desmontadas.
Manutenção preventiva.
Tem fumaça, fogo.
Tem óleo, calor e tem a noite.
As horas vão avançar e eles estarão lá.
Longe dos escritórios limpos e da vista para o mar.
São Adilsons, Otílios, Severinos e tantos outros.
Todos ilustres anônimos.
Não saem nos jornais, não aparecem na televisão.
Mas têm um brilho único.
No meio do vulcão mecânico resolvem, consertam, conferem, verificam, lutam.
Quais serão seus sonhos, seus medos, suas esperanças?
As horas custam a passar.
As famílias estão longe.
Alta madrugada.
Solidária na solidão.
Os homens se cumprimentam.
O serviço tem que ser feito.
Bem feito.
Impecável.

A usina não é só ganha-pão.
É parte da gente.
E estes homens são o sangue dessas máquinas gigantes.
Estão lá, sempre. Seja noite ou seja dia.
Com ou sem alegria.
A coisa toda funciona assim.
De vez em quando se parecem com fantasmas, exaustos.
Imundos.
Mas são heróis.
Brava gente.
Guerreiros sem exército.
Soldados sem bandeira, só coragem, competência.
É a história que se repete a cada novo turno.
Uma história que merece ser contada, valorizada.
Merece respeito.

Ser humano faz a diferença…
O resto é estatística, conversa de intelectual.
O dia vai nascer e nova turma vai entrar, serão outros e outros e outros.
No meio das engrenagens.
E dos músculos gastos virá a riqueza.
Do tempo entregue virá o futuro.
Da dedicação virá o crescimento…

E quem vai lembrar disso tudo?
Quem?

(Luiz Antônio Gaulia)

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