O discurso integrador da sustentabilidade

O conceito de desenvolvimento sustentável é, por definição, multidisciplinar. Por tratar de como a humanidade deve se relacionar entre si e com o planeta para garantir sua continuidade a longo prazo, propõe um modelo multidimensional de atuação, que abrange diversas questões até então vistas isoladamente. Os assuntos foram divididos em três grandes temas – economia, meio ambiente e sociedade – que fundamentam a concepção e direcionam as ações.

Assim como toda área, a sustentabilidade construiu um discurso próprio para se comunicar, com o desafio de dizer coisas complexas, de forma simples, para o maior número de pessoas possível – afinal, diz respeito a todos. Portanto, para dar conta do amplo conteúdo e público focado, tal discurso precisa integrar uma série de elementos, alinhando ideologias.

Integrando ciências – Exatas, biológicas e humanas compartilham um espaço de intersecção no macro tema do desenvolvimento sustentável. A linguagem técnica das ciências é democratizada, adaptada a um público heterogêneo, e suas teorias são aplicadas a contextos específicos, o que facilita a compreensão. Todas elas se mostram necessárias para explicar os conceitos econômicos, ambientais e sociais e são motivadas a se aprofundarem cada vez mais. Nas academias, os estudos sobre o tema se multiplicam em todas as áreas, contribuindo para a busca de soluções efetivas.

Integrando públicos diversos – Um dos grandes méritos do discurso da sustentabilidade é a conciliação de empresas, terceiro setor, governo, comunidade e consumidores. A conversão desses públicos tão distintos (muitas vezes, de interesses conflitantes) resulta no enriquecimento do diálogo e amadurecimento de cada grupo. No mundo empresarial, a inclusão dos stakeholders é fundamental para a comunicação da sustentabilidade, pois, ao se aproximarem deles, as corporações conseguem identificar o que é importante dizer e de que maneira. Sem eles, portanto, o discurso fica vazio, não diz nada a ninguém. Ao mesmo tempo, a prática contribui para o autoconhecimento da companhia, que consegue identificar melhor o impacto de seus negócios.

Integrando hemisférios Norte e Sul – Considerando o tradicional mapa-mundi, em que os países ricos ficam na parte superior, e os pobres, na inferior, é possível dizer que a sustentabilidade integra os hemisférios Norte e Sul do planeta. Para se pensar em uma gestão (realmente) mundial dos recursos naturais – pretendida desde a Conferência de Estocolmo, em 1972, pelo menos –, nenhuma nação pode ficar de fora. A nova visão, dissipada globalmente, considera que são todos responsáveis pelos impactos socioambientais e, portanto, potenciais agentes de mudança. Agora, as vozes de baixo, detentoras dos almejados recursos naturais e das repelidas mazelas sociais, começam a ser ouvidas.

Integrando esquerda e direita – Segundo alguns autores, o discurso do desenvolvimento sustentável substituiu o do desenvolvimento econômico no mundo. A ideia de que o objetivo final dos negócios era somente o lucro, pura e simplesmente, mesmo que implicasse o prejuízo de muitos, deu lugar ao anseio pela perenidade, pelo crescimento saudável que não impacte negativamente no meio ambiente, na sociedade e na economia e, assim permita a continuidade desses mesmos negócios. Dentro de toda a concepção da sustentabilidade, talvez a parte social tenha sido a que primeiro atraiu os socialistas, mas o pacote todo responde aos ideais de justiça e vida digna que a ideologia prega.

Integrando o tempo – Por tratar da noção de longo prazo, o discurso do desenvolvimento sustentável utiliza constantemente a noção de tempo. Aliás, a própria palavra “desenvolvimento” pressupõe uma demanda pela grandeza, pois implica ações contínuas, duradouras. Na abordagem do tema, frequentemente retomam-se experiências passadas, analisa-se o presente e, então, projeta-se o futuro – geralmente, com perspectivas catastróficas, caso nenhuma mudança efetiva seja feita. O tempo, portanto, é intensamente trabalhado no discurso, nas três concepções (“ontem”, ‘hoje” e “amanhã”), reforçando o aspecto dialético – e também dinâmico – da sustentabilidade.

Integrando canais de comunicação – Com cada vez mais espaço na mídia e nas gestões governamental e empresarial, a sustentabilidade tem conquistado novos canais de comunicação. No mundo corporativo, os relatos das iniciativas sustentáveis avançaram bastante nos últimos anos, com o formato de publicações anuais. A tendência, porém, segundo especialistas, é que o processo de comunicação evolua para uma periodicidade maior, utilizando a dinâmica ferramenta da internet. O segundo canal não exclui o primeiro, pois, enquanto um confere uma visão panorâmica e mais analítica, o outro agrega agilidade às ações. Paralelamente, TV, cinema, rádio, jornais e revistas também têm veiculado cada vez mais o tema da sustentabilidade, evidenciando que, democrático e atemporal, o discurso veio pra ficar.

(Silvia Wargaftig)

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